sábado, dezembro 21


Cenário de um crime

Antje vivia em uma casa complicada e cor-de-rosa. Coberta por heras perfumadas e rodeada por um formidável jardim, minuciosamente desenhado e executado por ela. Precisão e delicadeza. Habilidades herdadas de seus antepassados alemães e japoneses. Era uma alemã de olhos puxados. Uma japonesa de olhos esverdeados, espirituais.
Momo, como sua família a chamava, durante o dia cuidava da sua casa rosa, do seu jardim e do seu filho, Keiko. Durante a noite, dedicava-se ao seu marido, Toru. Preparava para ele o banho e a comida. Organizava as compras que ele trazia e ouvia suas poucas palavras e recomendações. Ele falava pouco. Ela era muda, desde os oito anos.
A boa esposa tinha um tempo para sí pelas manhãs, as quais passava cultivando plantas na estufa ou esculpindo o seu jardim. Às vezes criava arranjos de Ikebana encomendados por Toru para pessoas ou eventos importantes. No restante do dia, raramente ia à estufa. Salvo para alguma rega especial ou quando tinha o impulso de comer flores, adquirido praticamente na mesma época em que perdera a capacidade de falar. Mas só comia aquelas que ela mesmo plantava. Nunca as que vinham do lado de fora da cerca. Nunca as que cresciam desordenadas, além do seu jardim perfeito.
A rotina do filho, Keiko, consistia em estudar, fazer as tarefas e inventar brincadeiras para se distrair sem incomodar os adultos.  Era um menino de temperamento alegre que havia aprendido a viver em uma casa pouco ruidosa. Guardava a maioria das suas palavras para as horas e os amigos da escola e para conversar consigo mesmo nas infindáveis aventuras que conseguia criar naquele lar imenso e isolado.
A casa cor-de-rosa ficava longe do centro da cidade. Os vizinhos mais próximos eram os já idosos Morita, o casal de empregados da família. Viviam a mais de dez minutos de caminhada, nos limites da propriedade com a estrada. Trabalhavam cuidando da horta, do pomar, dos animais, da limpeza da propriedade e da casa. Sabiam especialmente como desenvolver deliciosas maças, pêssegos e cogumelos. Para alguns trabalhos, contavam com dois peões mais jovens, que não viviam na propriedade.
Na casa rosa também morava o gato branco de Antje, que a Sra. Morita considerava mais assustador do que qualquer gato negro que já conhecera. Tinha um pelo alvíssimo, resplandecente e olhos escuros sem fundo.
O animal apareceu filhote em uma noite fria, na porta da frente. Antje o encontrou, molhado e silencioso. Imediatamente percebeu que aquela era uma alma como a sua e o adotou.
Todos se referiam ao mais novo morador da casa apenas como ¨gato¨. Não ganhou outro nome porque sua dona não precisava de palavras. Cresceu tão silencioso e discreto quanto ela. Aprendeu a permanecer imóvel durante muito tempo, sem dormir, apenas observando-a. Dois seres sempre próximos, como pontos de equilíbrio no universo. Não poderiam ter encontrado melhores companheiros nessa vida. Comiam flores juntos e se comunicavam por seus olhos igualmente sombrios e expressivos.
Pelo pulsar das suas pupilas escuras, mulher e gato podiam distinguir as necessidades, as ideias e os pensamentos alegres ou sórdidos um do outro. Como quando Antje detectava a presença de uma lagartixa, criatura que ela detestava. Sem a necessidade de nenhum movimento facial, seus olhos emitiam uma sentença, que o amigo imediamente cumpria, capturando e matando a intrusa. Mas o gato não comia as lagartixas, dado que ele também as detestava. Levava seus corpos sacrificados para além do jardim.
Em uma manhã rotineira, enquanto trabalhava em um complicado enxerto de gerânios, Antje ouviu tocar o telefone. Ainda intoxicada por um tira-gosto de flores, dirigiu-se até o aparelho, seguida por seu igual. Do outro lado da linha, Toru não esperou ouvir nada, apenas informou à esposa que naquela noite teriam visita. Ela desligou. Era uma quinta-feira e isso poderia acontecer.
Dirigiu-se para a cozinha, com a missão de preparar os melhores pratos que conhecia e fazer com que o visitante tivesse uma experiência sensorial perfeita. Era a parte que lhe cabia nos rituais extravagantes de Toru.
O restante daquele dia, Antje passou na cozinha. A senhora Morita se encarregou de serví-la com víveres do pomar e da horta, ovos frescos e um faisão já limpo.
Cozinhava sob os olhares de seu gato e de seus pais, estes emoldurados na parede. Como eles ficaram felizes quando o belo Toru, herdeiro cobiçado, anunciara ter escolhido a ela, a silenciosa Momo como esposa! Era uma menina bonita, mas por seu defeito, seus pais acreditavam que nunca encontraria um bom marido. Além de ser muda, Antje não fazia amigos. Não era segredo seu estranho hábito de passar os dias sozinha a vagar pelo jardim e pelo bosque, no qual, quando criança, perdera-se por toda uma noite. Do qual sua voz nunca regressou.
Aquela noite escura havia ficado para sempre em seus olhos. É o que dizia a Senhora Morita.
Logo que Antje completou 16 anos, Toru pediu aos seus pais permissão para se casarem. Declarou que a condição da jovem era uma benção e a levou para viverem juntos naquela enorme propriedade, da qual ela pouco saía e onde estavam enterrados seus pais e seus quatro bebes que não haviam vingado. 
No final da manhã, Keiko voltou da escola, cumprimentou a mãe e viveu o seu mundo. Banhou-se no riacho, fez suas tarefas, jogou, jantou e se deitou cedo, pois nessa época do ano, o calor se desfazia em nevoveiro e desaparecia com o sol. Keiko não gostava do desconforto do frio.
Antje beijou o rosto adormecido do filho. Ligou as luzes do jardim, acendeu velas pela casa, arrumou a mesa de jantar, distribuiu os arranjos de flores e colocou para tocar as músicas preferidas do esposo.
Toru chegou acompanhado de um homem em trajes pouco elegantes, que se mostrou encantado com o ambiente criado pela dona da casa.
_ Essa é Antje, minha esposa. _ Apresentou, Toru. O visitante sorriu com deferência.
_ Esse é o Senhor Miguel. Ele veio do Paraná e está buscando um trabalho na cidade. _ Explicou.
Antje o cumprimentou com um quase sorriso, um olhar sem fundo e um aceno de cabeça.
_ Que linda casa! E que lindas flores! _ Exclamou o homem, apontando para um arranjo de cíclames. _ Como se chamam? Perguntou, com simpatia, para Antje.
_ Flores. _ adiantou-se Toru. _ Flores são flores. Completou, conduzindo o convidado ao tatame que ficava numa salinha separada da sala principal por uma divisória de bambú e papel de arroz, que era reservada para esses jantares especiais. O visitante se acomodou ao lado da grande janela de vidro emoldurada de buganvillas e se distraiu apreciando o movimento das carpas em um pequeno lago, suavemente iluminado.
Durante cerca de duas horas, alheia ao que os homens conversavam, Antje serviu a sequência de pratos, as bebidas e cuidou para que a música estivesse sempre tocando.
Quando o marido a dispensou, ela lavou a louça e foi se preparar para a segunda parte das suas obrigações. O quarto era o único lugar onde sua sombra branca era proibida. O gato passava a noite no corredor do lado de fora.
Toru demorou algumas horas para subir as escadas e despertar a esposa. Nessas noites de visitas e de bebidas, agradecido, ele prestava a sua esposa uma especial atenção. Cobria-a de carinhos, de paixão e de prazer. Toru era forte e habilidoso e havia nele um sentimento de cumplicidade e de urgência que a arrebatavam. Mas não eram suficientes para fazê-la sorrir, enquanto ele sussurrava em seu ouvido:
_ Momo...
Antje despertou cedo, preparou e serviu o café da manhã para Keiko e Toru, mas ela mesmo não comeu nada. O marido mantinha um olhar vibrante para o infinito e o cansaço excitado de quem pouco havia dormido na noite anterior. Minutos antes das sete horas, os dois homens da casa cor-de-rosa se despediram e sairam.
Os Morita e os peões, envolvidos em suas obrigações com os animais, não chegariam ali antes das nove horas.
Antje se apressou até a estufa para buscar flores frescas. Tomou nos braços os dois vasos de ciclames mais bonitos, comeu algumas pétalas e saiu em direção ao bosque, acompanhada pela criatura branca que era sua alma.
Caminharam alguns minutos até que o animal se deteve sobre um ponto no qual o solo parecia revirado. Antje se aproximou, abaixou-se e examinou a terra macia. Tirando uma pequena pá do avental, fez dois buracos rasos e plantou neles os cíclames de cores pálidas.
Parou ali alguns segundos, com as pupilas silenciosas. Levantou-se e se afastou sem olhar para trás, para a cova, agora florida, onde Toru havia enterrado o corpo do último visitante. Seguiu para casa, cuidando para não pisar nos locais onde as flores cresciam desordenadas e voltou para os seus afazeres.

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terça-feira, dezembro 3

Opciones


En Español.

 
Si se trata de hambre del alma, ninguna pasión es tan poca que no merezca ser llevada a la boca.
Sin embargo, es fácil ir por la vida sin vivir las pasiones. Casi todo lo que lastima, puede ser mitigado.
El hambre, la indignación, la miseria, el disgusto, la ira, los deseos prohibidos.
Cualquier cosa puede ser pintada de color rosa, maquillada, suavizada por la psicología, reevaluada por el sentido común o intercambiada por alimentos, cigarrillos, medicamentos, ropa, ficción.
Lo difícil es tocar la carne, las heridas, enfrentar los resentimientos. Admitir lo obsceno, lo perverso, lo degradante, el fracaso. Provocar repugnancia, aceptar el dolor, aceptar la muerte, sacrificar las ilusiones edificantes e intercambiarlas por vida.
_ Ah, dejálo.
_ ¡Alto!
_ Píensalo bien!
_ Respira.
_ Dale la vuelta.
La ropa elegante esconde el latido del corazón. La mirada baja desprecia el deseo más ardiente. La sonrisa cubre una revuelta lacerante.
Y vamos pudriéndonos. No porque las heridas ocurran, sino porque son sufocadas.
Al negar los excesos, el miedo, la sangre, el sufrimiento, los gritos, tan legítimos y espontáneos, creamos los dolores más profundos y las más terribles tragedias. Por falta de alivio, por falta de vida.
Cuando desaparezca la humanidad, no será por eventos de extinción, más bien por pasteurización. Por inutilidad absoluta del alma.

Desejo do dia: Sabedoria.

 

 




Opções



Se é uma fome da alma, nenhuma paixão é tão pouca que não mereça ser levada à boca.
Mas é fácil passar pela vida sem viver as paixões. Quase tudo o que dói, pode ser amortecido.
A fome, a indignação, a miséria, a repulsa, a raiva, os desejos proibidos.
Tudo pode ser pintado de cor-de-rosa, maquiado, amenizado pela psicologia, reavaliado pelo bom-senso ou trocado por comida, cigarro, drogas, roupas, ficção.
Difícil é tocar a carne, as feridas, encarar as mágoas. Admitir o obsceno, o perverso, o degradante, o fracasso. Provocar repulsa, deixar doer, deixar morrer, sacrificar as ilusões edificantes e trocá-las por vida.
_ Ah, deixa pra lá.
_ Páre!
_ Pense bem!
_ Respire.
_ Contorne.
A camisa pólo esconde o coração pulsante. O olhar baixo dissimula o desejo mais ardente. O sorriso encobre uma dilacerante revolta.
Assim vamos apodrecendo. Não porque as feridas aconteçam, mas porque são abafadas.
Por negar os excessos, o medo, o sangue, o sofrimento, os gritos tão legítimos e expontâneos, criamos as dores mais profundas e as mais terríveis tragédias. Por falta de alívio, por falta de vida.
Quando a humanidade desaparecer, não será por eventos de extinção, mas por pasteurização. Por absoluta inutilidade da alma.