quinta-feira, novembro 27

Normalmente chove, às vezes piora

Vista da minha varanda em dia de chuva: ocupação nos morros e em torno do mangue do Itacorubi. Também não sei se o meu prédio deveria estar aqui, mas está regular e tem "habite-se".

Olá,

Uma notícia boa e muitas más. A boa é que eu defendi a minha dissertação. Foi tudo muito bem.
As más vêm de todas as tragédias que se revelam diariamente em nosso querido Estado. Elas foram deflagradas pela chuva, mas as causas vão muito além das chuvas.
O título da minha dissertação é “Dinâmica de sistemas aplicada ao planejamento de projetos de desenvolvimento: projetos de habitação social.” Eu usei simulação para analisar o problema do avanço das ocupações irregulares em Florianópolis, para apoiar a elaboração de projetos. Ainda estou num papo meio acadêmico eu sei.
Por coincidência, defendi a dissertação na sexta-feira à noite, quando começou a cair o “toró” que devastou muitas cidades, inclusive a minha.
As causas dessas tragédias são muitas e fazem parte do sistema político-administrativo e cultural que criamos. O livro "Planeta Favela", de Mike Davis, aborda bem a questão. Se parte da população não tem uma renda que permite viver em uma casa regular em um local adequado, se não há alternativas acessíveis para essas pessoas, o que elas podem fazer? O campo foi abandonado durante muitos anos e as famílias migraram em busca de oportunidades. Ao mesmo tempo, deu-se a falta de investimentos públicos em habitação, infra-estrutura e em planejamento urbano. O mercado informal tornou-se tão forte que a irregularidade não é mais a excessão. Não são apenas as pessoas muito pobres que constroem em áreas irregulares ou de forma irregular.
As inundações poderiam ser evitadas e as maiores tragédias ocorreram em função das construções e desmatamento em áreas que cederam. (Explicação aqui).
Segundo a ONU, em 2007 ocorreu um marco, passamos a ter mais moradores no meio urbano do que no meio rural. É preciso reinventar as nossas cidades para lidar com as questões que essa configuração implica.
No entanto, as decisões que realmente resolvem os problemas são dolorosas e difícieis. Principalmente para os políticos, mas também para todos nós, acostumados com as irregularidades que muitas vezes nos beneficiam. Cada esforço que deixamos de fazer agora vai ser cobrado no futuro. Com vidas.
Todos estamos sofrendo os efeitos das enchentes, deslizamentos, mas vou comentar sobre isso depois. Agora é hora de ajudar.
É preciso estar ciente de que o que estamos fazendo é atuar sobre os sintomas de um problema crônico muito grave, que precisa de muito mais para ser resolvido.
Ainda valem as palavras de Barbara Ward, (Conferência Mundial Sobre o Meio Ambiente, Habitat, 1976):
“ Nossa primeira impressão deve ser por certo o grau em que a sociedade industrial parece ter sido não tanto planejada para fins humanos como simplismente batida até ganhar um formato qualquer por repetidas pancadas de gigantescos martelos _ o martelo da tecnologia e da energia aplicada, o impulso esmagador do interesse nacional, o objetivo simples do ganho econômico.”
Foi o ano em que nasci.

Desejo do dia: que a esperança possa chegar a quem perdeu tudo ou quase tudo.
Obs: na minha página de agradecimentos da dissertação também lembrei de vocês: "Aos amigos do Blogue, que nunca deixaram de passar para me apoiar".

terça-feira, setembro 16

Filosofia

Estou prestes a marcar a defesa da dissertação.

Vai nascer na primavera.

Com novos sonhos...

Me vem a lembrança de Fernando Pessoa, como Alberto Caieiro

"Não basta abrir a janela

Para ver os campos e o rio.

Não é bastante não ser cego

Para ver as árvores e as flores.

É preciso também não ter filosofia nenhuma.

Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.

Há só cada um de nós, como uma cave.

Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;

E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,

Que nunca é o que se vê quando se abre a janela."

Desejo do dia: Um beijo para quem não me esqueceu. Eu não esqueci de vocês.

terça-feira, março 18

Personalidade

Somente quem é de SC vai entender o motivo de todos cantarem com tanto entusiasmo, neste clip da música "Certos Amigos", do Grupo Expresso. É o fundo para este post.

"Se certos amigos nos mostram que o mundo ainda é bom...
Por saber, que tendo você do meu lado eu me sinto mais forte
Quero beijar o teu rosto e pegar tua mão
Se cada estrela no céu é um amigo na Terra
A força do acaso do encontro é uma constelação"

Há tantos assuntos interessantes nesse mundo sobre os quais eu não sei muito...

Será que algum deles me ajudaria a saber mais sobre mim? Entender sobre personalidades, ego, a razão de eu ser como sou. Entender sobre filosofia e suas correntes. Entender sobre religiões e seus dogmas. Saber mais sobre literatura e sobre todos aqueles que criaram personagens para divagar sobre a alma humana.

Mas, para além desses temas, ninguém revela mais sobre mim do que meus amigos. Incluindo entre eles a minha família. Eles têm espelhos nos olhos. (Nem sempre eu gosto do que eu vejo.)

Esse é o meu critério para gostar de alguém logo de cara: olhos límpidos.

Com a máscara do trabalho eu me saio bem, afinal, é preciso dedicação e eu compreendo as regras. No entanto, na vida social eu sei que sou meio Brigit Jones, falo sem pensar, falo o que penso, dou muitos furos, sou tímida, distraída e até egoísta. O Bruno costuma dizer que, em alguns casos, eu não faço "questão de agradar". Mas qual a pílula que se toma para isso? A do tempo e da experiência? No fundo, creio que os maiores ensinamentos que recebo vêm dos olhos dos meus amigos e algumas vezes, das suas palavras. E acaba sendo o amor, essa força incrível, que está em tudo o que é vivo, que me faz desejar ser melhor do que eu sou.

(E por falar nesse amor, lembrei de uma notícia, que li esta semana, sobre um golfinho que ajudou as pessoas de uma praia a desencalhar duas baleias. E eles são de espécies diferentes!)

A gente, bicho curioso, procura explicações até no nome:
"LILIANA - De origem italiana, deriva da palavra latina lilium, a flor-de-lírio. Portanto, é um anthostônimo ( nome de flor). Este nome foi largamente utilizado por todos os povos, assim sendo, surgiram muitas derivações no espanhol:Lilian ; no francês Liliane; inglês: Lilian ou Lily. Liliana - Do inglês Lilian, que significa pura, inocente. Variantes: Liliane, Liliam, Liliosa. É dotada de um temperamento impulsivo, que não cede diante de nenhum tipo de pressão. Luta para alcançar suas metas. Sempre investe com sabedoria e precaução."

E procurando mais sobre o tema, encontrei essa linda declaração de amor a uma Liliane, que diz que o significado do lírio é "te desafio a me amar".

Desejo do dia: um bom descanço para um querido professor que faleceu esta noite. Ele tinha olhos límpidos e me ensinou lições importantes. Difícil acreditar que ele se foi.

quinta-feira, março 6

Fernando de Noronha, finalmente!

(Sim, uma pausa na suada dissertação.)




















A Ilha nos recebe com um arco-íris nos Dois Irmãos. Um sorriso?
É notório que Fernando de Noronha é um lugar belíssimo, sendo destino dos sonhos de muitas pessoas que eu conheço, em parte por causa das inúmeras reportagens que mostram o local como um paraíso na Terra. E é lindo mesmo. No entanto, o que mais me encantou não foi a paisagem, mas a vida, o contato com uma natureza que não se sente ameaçada pelo homem. Grandes Resorts, espreguiçadeiras na praia, chalés a poucos metros da areia, isso não existe por lá. Mesmo os hotéis mais arrumadinhos não ficam na beira da praia. As praias mais belas (para nós, a Baía dos Porcos, a Praia do Sancho e a Praia do Leão) ficam distantes das vilas e ainda que se vá de buggie, é preciso caminhar um tanto. Há pouquíssima gente durante o dia. Chegamos a ficar sozinhos várias vezes, mesmo em alta temporada. E são cheias de vida.
Em nosso primeiro dia, decidimos fazer uma caminhada pelas praias do mar de dentro, partindo da Vila dos Remédios. No caminho, ficamos admirados com os mergulhos dos enormes atobás nas ondas. Eles não mostravam nenhum receio e mergulhavam e nadavam ao lado das poucas pessoas que encontramos.












Foto: Bruno, no começo da nossa caminhada.
Depois de cerca de uma hora caminhando, passamos pela praia da Cacimba do Padre, onde estava acontecendo um campeonato de surf e portanto a praia estava “lotada”, com umas cento e cinquenta pessoas.
Mas eu queria chegar logo na próxima praia, a Baía dos Porcos, que eu já adorava por fotos, uma pequena baía de cerca de 50 metros, famosa por aparecer nas principais imagens dos montes Dois Irmãos, símbolos da Ilha. Eu queria mergulhar ali porque era lindo. Ao preparar o snorkel, de fora da água, vimos uma tartaruga boiando para respirar. Corremos, achando que ela iria a algum lugar. Que nada, ficou ali, do nosso lado, a cerca de dois metros da areia, bicando as algas da pedra. Ali estava também outra tartaruga, maiorzinha. E logo vimos mais duas arraias e muitos outros peixes interessantes, como o estranho peixe cofre. Nas árvores à beira da praia, muitos ninhos de aves marinhas, como as viuvinhas e noivinhas.






Foto: Baía dos Porcos.
Quando a maré subiu, caminhamos até a próxima praia, do Sancho, também lindíssima, cujo acesso se dá por uma escada de ferro, como as de incêndio, em uma fenda na rocha e depois, alguns metros de escadaria irregular. Subimos e caminhamos por uma trilha de 150 metros até a bela vista da Baía dos Golfinhos. A Ilha tem uma vegetação seca (fazia tempo que não chovia descentemente) e uma fauna bem restrita, formada por pássaros como uma espécie de pomba com pezinhos vermelhos, que caminha entre as árvores, lagartos e uns mini-lagartinhos chamados mambuias e preazinhos chamados mocó. Não há cobras por lá.

Foto: Praia do Sancho.
Depois deste dia, descobrímos que onde quer que mergulhássemos, de cilindro ou não, haveria muita vida. Encontramos muitas tartarugas, arraias, tubarões, polvo, lagostas, linguados, enguias e centenas de espécies de peixes. Na praia do Sueste é possível nadar em meio a pelo menos uma dúzia de tartarugas de vários tamanhos. Todas as praias são povoadas por lindos linguados coloridos. Acho que nunca mais vou conseguir comer um polvo ou um linguado. No entanto, na praia do Leão, fizemos um divertido mergulho de snorkel em meio a um gigantesco cardume de sardinhas, e eu me senti mais solidária aos atobás que também mergulhavam conosco, pescando as sardinhas. Alguns peixes me parecem mesmo com comida.
E os golfinhos? De vez em quando eu olhava para o mar, e lá, ao longe, estava um grupo passando, saltando. Chegamos bem perto deles em um passeio de barco, mas ainda não realizei o sonho de encontrá-los embaixo da água.
As estrelas da viagem, para mim, foram as tartarugas, por ter tido tantas chances de estar bem próxima delas. Ainda tivemos o privilégio de fazer um “passeio” que consistia em passar a noite na Praia do Leão com um biólogo do Projeto Tamar, com o objetivo assistir à desova das tartarugas verdes gigantes. INCRÍVEL!
Chegamos na praia às nove horas de uma noite de lua cheia e já pudemos ver os rastros de duas tartarugas que haviam subido para desovar. Não dá para descrever aqui o sentimento de presenciar todo o processo desse ser imenso (as duas tinham 1,05m e 1,10m) e dócil. Acompanhar a sua aventura ao sair do mar, subir muitos metros até as dunas, arrastando seus cerca de 250 quilos (que na água flutuam), cavar por horas, com suas nadadeiras macias, em uma respiração profunda, olhando para nós, com os olhos mais doces e, depois de horas de esforço, arrastar-se de volta para a água, onde vai atravessar o mundo, nesse oceano infinito. Após a desova, pudemos deitar ao seu lado e tocá-la com cuidado.


Passamos a noite em uma cabana (a única da Ilha que fica na praia) e pela manhã, além da linda vista da praia, fomos presenteados com a visão de um ninho que havia aberto durante a noite e testemunhamos as novas tartaruguinhas partindo para sua jornada pelo mar. Apenas uma em mil sobrevivem até a idade adulta e, não importa o quanto viagem pelo mundo, depois de muitos anos e quilos, elas voltarão para desovar na praia em que nasceram.
Fizemos muitas caminhadas, mergulhos, conhecemos muita pessoas legais, mas sobretudo, estivemos mais perto dos outros seres da natureza do que nunca, e pudemos olhar em seus olhos, nadar lado a lado e entender que o paraíso não é paraíso porque é lindo e sim porque é cheio de vida...
em paz.

Desejo do dia: raciocínio.

domingo, junho 10

Floripa tour

A Georgia sugeriu um post com os 5 principais pontos da minha cidade, mas é tão difícil escolher 5, que eu escolhi 10...
Tradicionais:
1. Centro, Praça XV, Museu Cruz e Souza, Museu Casa da Alfândega, Mercado
2. Cabeceira da Ponte Hercílio Luz

Os pontos mais tradicionais de visitação são o Centro da Cidade, que inclui a nossa Catedral Metropolitana, a Praça XV, com a tradicional Figueira centenária e os manezinhos jogando dominó. Ao lado está o Museu Palácio Cruz e Souza, que poderia ser mais preservado, mas é um dos únicos registros históricos e aliás, um dos únicos museus da nossa cidade. Da Praça XV dá para ir caminhando, pela famosa rua Felipe Schimit até o prédio da Alfândega, onde está a maior oferta e os melhores preços de artesanatos típicos da cidade.

Ao ladinho está o Mercado Público de peixes e outros, onde os vendedores gritam as melhores ofertas e as lojistas perguntam "o que é que falta?". É no Mercado que está o famoso Box 32, onde se toma um bom chopp e um pastel de camarão especial.

Foto: Rua Felipe Schimit, que faz parte do Centro Histórico.
Um ponto próximo, mas um pouquinho longe para ir a pé dali é a cabeceira da Ponte Hercílio Luz, cartão postal mais famoso da cidade e que está em reforma, depois de muita polêmica. Acho que seria um ótimo lugar para um tipo de bondinho. É bonita de se visitar de dia e à noite.
A partir dela, começa a Avenida Beira-Mar, cuja ciclovia é muito utilizada para exercícios por quase todos nós e para passeios de domingo, eu diria, por todos nós. Domingo é o dia da feirinha de artesanato (no trapiche) e do encontro de carros antigos (no Koxixo's). Tem um fim-de-tarde lindo, principalmente no outono.
Foto: Ciclovia na Avenida Beira-mar.
Roteiro Leste:
3. Lagoa da conceição, Mirante da lagoa,
4. Joaquina e Dunas,
5. Praia Mole, Ponto de Vista, Ponta das Caranhas
É muito comum ser parada por algum turista procurando o caminho da Lagoa, pois a nossa sinalização não é grande coisa. Mas é gostoso pensar que em breve aquelas pessoas do carro vão se deparar com uma visão incrível do Mirante do Morro da Lagoa, principalmente se o dia estiver aberto e que nenhuma foto consegue captar. Lá de cima dá para ver a Lagoa da Conceição, (Wikipedia) a Praia da Joaquina, as Dunas, a Praia Mole, pelo menos.
Sempre que eu passo por alí, de dia ou de noite, agradeço por viver em um lugar tão bonito.
























Fotos: Sandboard nas Dunas da Joaquina

Descendo o Morro, no Centrinho da Lagoa, estão muitos restaurantes, bares, cafés e lojinhas. É um local para jantar (Pizza na Pedra, hum), para sair à noite e para encontrar os amigos no fim-de-tarde, aos domingos.
















Fotos: Avenida das Rendeiras
Seguindo pela Avenida das Rendeiras (há muitos restaurantes, recomendo o Barba Negra e o prato de macarrão ao molho fungi com camarão), que ladeia a Lagoa, chega-se à praia da Joaquina, famosa pelo surfe e pelas dunas, onde se pratica o sandboard, mas eu só recomendo para quem não se importa em passar o dia com areia na orelha. O tombo é inevitável.








Fotos: Praia da Joaquina
A próxima praia é a Mole, para mim uma das mais bonitas da Ilha e também ponto de surfistas e corpos sarados. No final da praia Mole, está a bela Praia da Galheta, onde as pessoas, principalmente homens e gays, praticam o nudismo. Só dá para chegar à pé. Foi na Praia Mole que eu e o Bruno flagramos, admirados, dezenas de golfinhos brincando de surfar nas ondas. Dois “abobados”, como se diz por aqui.









Fotos: Praia Mole
Passando a Praia Mole no próximo morro há um mirante para a Lagoa, no bar Ponto de Vista imperdível.


















Fotos: Mirante do Ponto de Vista e restaurante Ponta das Caranhas.
E descendo o morro, à esquerda, está o restaurante Ponta das Caranhas, que serve, à beira da Lagoa, um peixe enrolado recheado com camarão e catupery e rodeado com batata palha também imperdível. Quem quiser, pode seguir para a Barra da Lagoa, comunidade tradicional de pescadores.
Roteiro Sul:
6. Ribeirão da Ilha, Ostradamus
O Ribeirão é uma comunidade antiga com muitas casas em estilo açoriano preservadas e que, há alguns anos, investiu na criação de ostras. Um dos lugares mais gostosos alí é o restaurante Ostradamus. Não há quem não saia encantado.


















Fotos: Restaurante Ostradamus e o Ribeirão da Ilha
Roteiro Norte:
7. Santo Antônio de Lisboa
8. Jurerê, Praia do Forte, Forte de São José da Ponta Grossa.
Foto: Restaurante Açores
No caminho para o Norte está a comunidade de Santo Antônio de Lisboa, também com casinhas preservadas e que tem um restaurante que adoramos, ao lado de uma igrejinha linda, o Açores. A sequência de frutos do mar é uma ótima pedida. Ao lado está um museu que é uma graça, com uma boa variedade de artesato.

Muitas pessoas vão para a praia de Jurerê por causa da boa infra-estrutura e pelo mar mais quente e calminho. Ultimamente tem sido procurada também pelas baladas, que acontecem durante o dia, nos restaurantes e bares à beira da praia. Na ponta esquerda de Jurerê Internacional estão a Fortaleza de São José, interessante para quem gosta de história e a pequena e calma Praia do Forte.

Roteiro aventura:
9. Ilha do Campeche
10. Costa da Lagoa
Para quem curte passeios mais ousados, vale à pena tirar um dia para visitar a Ilha do Campeche. É preciso pegar um barco de pescadores na praia da Armação. A Ilha é pequena, mas tem uma água muito transparente (ótima para snorkeling) e inscrições ruprestres diversas. Na Costa da Lagoa também há uma caminhanda, que termina em uma cachoeira. Mas o mais comum é os turistas irem de barco, que sai do comecinho da Avenida das Rendeiras. A paisagem é bonita e há diversos restaurantes que especializados em frutos do mar.

Plus
11. Lagoinha do Leste
Na Lagoinha de Leste, há uma lagoa deliciosa que desemboca no mar, só é possível chegar andando ou de barco. É uma caminhada linda, que pode ser feita por dois lados, durando um pouco menos de uma hora ou quase duas. É muito gostoso passar o dia lá, mas na volta dá uma preguiça! (Tem fotos lindas da caminhada aqui no blog do Aurélio)

Outros:

- Altos do Morro da Cruz
- Morro das pedras
- Passeio de escuna para as Fortalezas e Ilha de Anhatomirim
Outras paisagens bonitas podem ser vistas do Altos do Morro da Cruz, bem no meio da cidade, do Mirante Morro das Pedras, no Sul da Ilha e de um passeio de barco pela Fortaleza de Anhatomirim, que geralmente também leva à Baía dos Golfinhos (sempre que eu fui, vi os golfinhos, mas algumas pessoas me disseram que foram e não viram).
- Duas praias lindas e famosas que ficam no Norte: Brava (infelizmente construíram demais por lá. É lá que fica o Kioske do Pirata, balada diurna, famosa no verão) e a Praia do Santinho. Esta última tem um famoso Resort, oCostão do Santinho e incrições rupestres nas rochas, mas é a praia mais distante da Ilha.









Fotos: Vista do Mirante do Morro da Cruz e vista do Mirante do Morro das Pedras.

Artesanato: sou apaixonadapelo artesanto local, principalmente o que está relacionado ao folguedo do boi-de-mamão e à vida dos pescadores e rendeiras.
E se chover? oh, oh

Desejo do dia: colocar os e-mails em dia.

segunda-feira, maio 21

Paparazzi e Bollywood



Perseguição que o site TMZ chama de "paparazzi parade", atrás de alguma coisa para mostrar de Britney.
Fiquei com vontade de manifestar a minha crescente indignação com a conduta de muitos paparazzi, que correm atrás das chamadas "celebridades" de forma descabida. Mas é claro que eles fazem isso porque alguma revista compra as fotos. Essa revista, por sua vez, as compra porque há leitores para esse tipo de "notícia". Por isso, penso duas vezes antes de acessar uma foto dessas. Afinal, cada clique demostra o interesse e estimula a indústria dos "flagras".
Fotos em eventos, festas, tudo bem, mas da pessoa andando na rua, em um restaurante, acho de mau-gosto. Em muitos casos, não é um ou outro, são uns 20, 50 caras andando atrás da pessoa. Fazer plantão na frente da escola do filho, sair atrás de moto ou de carro, tendo a cara de pau de chamar esse processo de "perseguição", é demais mesmo para quem sempre sonhou com a "fama". (Sem contar o perigo, pois a Princesa Diana morreu em uma dessas perseguições).
Não acredito que as coisas devam se resolver na violência, mas entendo que é apurranhação para tirar qualquer um do sério e abalar a sanidade. Volta e meia um paparazzi reclama que apanhou, foi xingado (sim porque o "artista" teria que sorrir sempre que fosse à rua, fazendo chuva, sol ou unha encravada) ou que foi "atropelado" (ou seja, se jogou na frente do carro para tirar foto). Diversos atores andam reclamando e lançando manisfestos, mas enquanto houver demanda, haverá quem se disponha a fazer de tudo para conseguir uma "boa foto" de, pasmem, "fulano lanchando", ciclano "fazendo compras", da celulite da "beltrana", daquela top com o dedo no nariz!!! É tanta a falta de assunto que tem paparazzo tentando tirar fotos de dentro das casas das pessoas, ultrapassando todos os limites da decência. Pior, se alguém tirar essas fotos, vai haver revista para adquirir e gente para comprar essa revista.
Recado da Taís Araújo: “Vai fotografar casamento, batizado, meu querido! Não pára de nascer criança para ser batizada e nem de casar gente”.

Notícias da Índia
Conheci a preciosa Adriana Naili em Hong Hong, uma jornalista muito comédia, que me fez rir demais e que ajudou a colorir a minha estada em Hong Kong e na Ásia (fizemos uma viagem inesquecível de brasileiros para as Filipinas, escapando, felizmente, do Tsunami). Ela já está há bastante tempo conhecendo (a fundo) muitos países e é um exemplo de coragem e desprendimento.
Agora, está na Índia e dia desses mandou dois links para matérias curtinhas em vídeo que ela fez para a revista Viagem e Turismo. A primeira, sua aventura como figurante de um filme em Bollywood, com direito a viajar no colo de uma alemã, é surreal: veja aqui. A outra é sobre a Yoga do riso.

Notícias relacionadas:
Manifesto do Du Moscovis (no site do Fuxico, eu sei, mas foi o único que achei pelo google)
Os paparazi e as celebridades, relação complicada

Desejo do dia: escrever artigo.

quarta-feira, maio 9

Frio da Patagônia e Cinco Blogs que me Fazem Pensar

Frioooooo!!! E ainda é outono.
A temperatura chegou a 7 graus na madrugada passada, mas o forte vento gelado, que chegava gemendo em castellano, direto da Patagônia, fez com que sensação térmica fosse de uma temperatura bem menor. É o famoso vento sul, ou vento suli, como chamam os manezinhos.
Dá vontade de hibernar ou mesmo de adotar uma rotina de panda gigante:












Tradução da imagem: "41% descansando, 55% comendo, 4% outros."

Foto tirada no Ocean Park em Hong Kong.

Sendo que 50% do "eating" seria de chocolate e seus derivados.
Ps: Já nevou em Urupema, no Planalto.
A querida Denise, do Sindrome de Estocolmo me surpreendeu com uma indicação muito legal:

Assim, preciso indicar "5 Blogs que me Fazem Pensar". Certamente o da Denise seria o primeiro deles, porque ela é uma mulher fantástica, que não apenas faz pensar, como faz sentir. É difícil escolher outros cinco, pois gosto de tantos. No entanto, considerando que a idéia é que "os que me fazem pensar", os primeiros que eu me lembro são:
- Stuck in Sac, da Leila. Adoro ler as novidades sob o seu ponto de vista. Sempre tem algum assunto interessante, direto dos EUA, que de outra forma, poderia ter passado despercebido. E ela, com talento de jornalista e sensibilidade, escreve muito bem.
- Uma Malla pelo Mundo, da Lúcia Malla. Ela não só tem uma experiência internacional incrível, como compartilha tudo com a gente, com fotos maravilhosas, tiradas por ela e pelo marido (algumas premiadas) em lugares fantásticos. Para tornar tudo melhor, é bióloga e ecologista. Show!
- No Oriente, do correspondente do Jornal O Globo na China. Faz com que eu me lembre da minha temporada de Hong Kong. A China é agora uma parte do meu mundo e como o Bruno continua indo duas vezes por ano para lá, gosto de continuar por dentro.
- Público e Privado, da Cris. Ela começou a blogar faz pouco tempo, mas tem um conteúdo muito bom sobre literatura e universo feminino, sob os olhos de uma professora, doutoranda e, claro, mulher.
- Georgia. Ela mora na Alemanha e eu me encanto com o seu cotidiano, a sua maneira de educar os filhos e de ajudar a família.
E para descontrair um pouquinho, um blog que me faz rir: Historinha da Dri Spaca, que encara de forma debochada o cotidiando e as pessoas que se expõem na Internet. Esse também é o meu cotidiano, com todos os clichês, poses e "manezices" da nossa cultura. Roupas, festas, fotos, costumes. Muitas pessoas ficam chateadas, mas acho que é importante encarar essa tentativa de glamourização da vida com humor e não se levar tanto a sério. Eu poderia aparacer váaarias vezes numa fotinho no site dela.
E ai, que ninguém me ensina a fazer uma lista de blogs ali do lado. Sei mais de chinês do que de html.

Desejo do dia: sopão com cebola, cenoura, batata e abóbora, bem quente.

quinta-feira, maio 3

Operação Moeda Verde – voltei a ter esperanças







Foto: policial e Fernando Marcondes de Matos, dono do Costão do Santinho.

A Polícia Federal me surpreende mais uma vez.

Eu cresci pensando que as famílias e grupos de poder que se perpetuavam na política e no poder público em geral tinham todo o domínio sobre os rumos da cidade e do Brasil. Para ter qualquer tipo de poder, seria necessário negociar com algum grupo e nada, nem os marines aportanto da Beira-Mar, iriam mudar alguma coisa (muito menos isso).

Ao fazer Direito e estagiar em órgãos públicos, minha certeza aumentou. Mas há uma grande esperança: uma geração um pouquinho anterior à minha está conseguindo mudanças. São pessoas 5 a 10 anos mais velhas do que eu, que estudaram e por concurso e competência, chegaram à Polícia Federal e ao Ministério Público (recém-emponderado, em 1988 – que tem feito muita diferença). Eles estão fazendo o que eu não achava que seria possível: investigando, denunciando e conseguindo grandes vitórias contra aqueles que pareciam intocáveis. Até o Maluf teve seus dias de cadeia e humilhação. Vai demorar um pouco para esse movimento abrir os caminhos até o Congresso, mas vai acontecer.

Operação Moeda Verde: É notório, em Florianópolis, que a maneira de construir passa pelo tráfico de influência, suborno e mudança oportunda de leis. Mas sempre foi assim, fazer o quê? As áreas de preservação resistem até o primeiro interessado se mostrar forte o suficiente para mudar uma lei ou subornar as pessoas certas. Estarão as coisas mudando?
Hoje, 03/05, políticos, mega-empresários e funcionários públicos foram presos temporariamente em uma operação da Polícia Federal. Essa prisão e o elemento surpresa servem para preservar as provas, apreendendo computadores e documentos, que de outra forma, poderiam ter sido escondidos. (notícia 1, notícia 2, notícia 3.E já está nos blogs locais: Blog do Becher, Dveras, SandroSell, )

Conheço uma pessoa que trabalha junto à Polícia Federal, que contou que essas investigações, como a Operação Furacão, ocorrem no melhor clima “filme de ação”, com direito a todo tipo de agente disfarçado e escutas telefônicas.

Assim, grandes empreendimentos imobiliários da cidade estão sob investigação. Por que isso me interessa? Eu gostava muito de Direito ambiental quando estudava Direito. Estagiei um ano na Fundação do Meio Ambiente, é poca em que fiz a minha monografia de conclusão de curso (1998), com o título: “Direito Ambiental e Urbanístico e Empreendimentos Turísticos em Florianópolis: aspectos teóricos e práticos.” Na qual analisei o Costão do Santinho, Jurerê Internacional e Porto da Barra. Agora estão entre os suspeitos: o novíssimo Shopping Iguatemi, Jurerê Internacional e Costão do Santinho. Bons empreendimentos são muito importantes para o desenvolvimento da cidade, mas não é por isso que a gente vai aceitar a corrupção e a ilegalidade, como se uma coisa não pudesse acontecer sem a outra.

Também trabalhei no Ministério Público e sentia que seria muito difícil mudar o sistema judiciário para que um dia ele realmente promovesse justiça. Como eu fazia Administração, comecei a me envolver em projetos de desenvolvimento e deixei minha carteirinha da OAB de lado, para sempre. Ainda bem que outros não desistiram.

Hoje fiquei pensando seriamente em fazer concurso para a Polícia Federal. (nota mulézinha: adorei o uniforme preto!)

Também sinto que tenho feito alguma diferença na minha área, mas é muito bom voltar a acreditar. Talvez a ser igênua, porque é muito difícil saber o que acontece realmente.

Trecho de um livro publicado pelo CECCA transcrito na monografia:
Sobre notória reunião realizada em 1980, com o Prefeito de Florianópolis, diretoria e presidência do Ipuf, e o representante da Habitasul, foi publicado pelo CECCA, o relato de Etienne:
O presidente da Habitasul afirmou que em hipótese alguma, (grifo nosso), eles iriam construir nos limites ambientais traçados, ou seja, não cogitavam liberar a frente da praia e construiriam em cima do rio. Quando um advogado do IPUF questionou os aspectos legais envolvidos, foi desmoralizado com um argumento hiper-realista:
_ Me venha com argumentos _ as leis nós fazemos e desfazemos(...)
A gente dizia:
_ Pelo menos preservem o rio e poupem a sua margem(...)
A resposta da Habitasul foi sintomática:
_ Imagina se nós vamos deixar o filé para todos, e comer o pescoço a 56m da praia...
[1]

Desejo do dia: assistir CSI. Ps: Sou SGR.

sexta-feira, abril 6

Farra do Boi - vergonha catarinense

A polícia registrou mais de 200 denúncias até ontem. Somente um farrista bêbado ferido foi detido. A TV mostra um boi encontrado, que de tão ferido, teve que ser sacrificado. Outro foi encontrado afogado na praia hoje.
É inacreditável o esforço que as pessoas fazem para conseguir martirizar um animal.















Agência Quadra Comunicação para o Jornal O Estado. (Fonte) (Imagem ampliada)
Hoje a TV mostrou as barreiras que a polícia criou para fiscalizar os veículos que pudessem transportar bois para a farra em Governador Celso Ramos. Mas a polícia afirma que os farristas preparam-se com antecedência, trazendo-os antes do início da operação. E que a farra ocorre em lugares de difícil acesso. Que há moradores atentos, preparados com celulares para avisar o grupo de que alguma viatura de aproxima.
A comunidade está fechada e quando a polícia chega o boi já está morto ou agonizando, as pessoas feridas, bêbadas e felizes (!), algumas casas destruídas pelo animal em fuga. Há também denúncia de conivência das autoridades.
A sociedade catarinense que eu conheço não compactua com essa prática ilegal, que ocorre de forma sorrateira, em cantos onde se encondem os criminosos. Praticantes alegam uma tradição herdada dos colonizadores açorianos (dos quais também sou descentente), um elemento da cultura popular, mas é na verdade uma perversão praticada às escondidas por indivíduos que se divertem com o sofrimento alheio. Assim como acontece em rinhas, touradas, entre outros.
Alguns alegam que a "brincadeira não tem nada de mais". Que não há violência porque "só" correm atrás do boi. Mas não ocorre assim. Se não são os homens bêbados e armados de facas e paus que se ferem, são as outras pessoas, como já vi, que se machucam terem a casa invadida pelo boi nervoso. Este ano uma mulher foi agredida pelos farristas ao denunciar a prática, mostrando que a violência gratuíta, estimulada e aceita socialmente, não fica restrita aos animais.
A farra do boi foi proibida apenas em 1997, gerando incontáveis protestos por conta dessas comunidades "tradicionalistas". Alguns tentaram legalizar a prática sob determinadas condições. Querem correr atrás do boi sem machucá-lo. Por que então o machucam atualmente? Até mesmo os traidicionalistas se assustam com o que acontece hoje.
Alega-se que a prática ocorre em áreas economicamente deprimidas e que é uma das únicas formas de diversão dos locais, tradicional. Teriam essas pessoas ficado paradas no tempo por problemas econômicos? Tantos elementos bonitos na cultura açoriana, por que preservar aquele que envolve uma cultura de maldade que a humanidade tenta superar? Como tenta superar a violência doméstica contra as mulheres e as crianças, os preconceitos. Que se faça o boi-de-mamão, o pau de fitas, o terno de reis.
A Lei Federal nº 9.605, de 1998, em seu capítulo V - Dos Crimes Contra o Meio Ambiente Seção I - Dos Crimes Contra a Fauna, em seu Artigo 32, considera crime: "Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exótico. Pena: Detenção, de três meses a um ano, e multa."
Ou seja, a lei reconhece que mais do que uma questão de preservação ambiental, os animais têm direito à sua integridade física, a não serem mal-tradados. Isso tampouco é como a caça, ritual no qual os índios respeitavam e agradeciam sua presa por servir-lhes de alimento. Mesmo na natureza, os grandes felinos enfiam suas presas no pescoço das vítimas e as sufocam antes de devorá-las.
Maltratar uma vida, divertir-se ao vê-la sofrer, não compadecer-se se seus gritos e de sua agonia é uma demonstração de desumanidade que não deveria ser incentivada ou ensinada às novas gerações como tradição. Tantas "tradições" estúpidas foram abandonadas pelo desenvolvimento da civilização humana. Mas há muitas outras que ainda temos que superar!











Boi encontrado morto ontem. (DC)
Sobre a Farra do Boi:
"A Farra começa quando o boi é solto e perseguido pelos "farristas“ (homens, mulheres e crianças), que carregam pedaços de pau, facas, lanças de bambu, cordas, chicotes e pedras. Eles perseguem o boi, que, no desespero de fugir, corre em direção ao mar, onde acaba se afogando; ou em direção às vilas, podendo invadir casas, hotéis ou qualquer lugar onde o animal possa se abrigar. Quando isso acontece, é comum pessoas serem feridas e terem danos materiais.
Antes do evento, o boi é confinado, sem alimento disponível, por vários dias. Para aumentar o desespero do animal, comida e água são colocados num local onde ele possa ver, mas não possa alcançar." (
Fonte)

Desejo do dia: roda de violão. Com a música "O sal da terra" de Beto Guedes

Up Date: Reportagem de hoje no Diário Catarinense
Animais - Território sem lei - LAURA COUTINHO/ Governador Celso Ramos
Ontem, dia "oficial" da farra do boi, cerca de 60 animais foram soltos para delírio da população de farristas que se concentrou no município de Governador Celso Ramos, a 41 quilômetros de Florianópolis.
Além dos moradores, pessoas de várias cidades foram atraídas pela possibilidade de participar da "brincadeira" sem risco de punição, em função do reduzido policiamento no mais tradicional reduto da farra no Estado.
No município, os policiais mantêm uma distância segura, alegando o risco de um possível confronto, os farristas ficam soltos para cometer infrações de trânsito, danos ao patrimônio e perturbar a ordem sem temer qualquer repressão.
São centenas de motociclistas embriagados subindo e descendo morros à procura dos bois em manobras arriscadas, dirigindo veículos sem placa e sem capacete. Brigas são comuns nesta época.
Quem é veterano na farra, denuncia. - Eu gosto de participar, mas antigamente a farra era outra. Hoje é muita droga e bebida. Também não tinha tanto barulho de música alta e das motos. É muita anarquia - disse Maria Monteiro, 60 anos.
A cidade não dorme durante o feriado. Ontem, às 7h, os olhos vermelhos, o passo incerto e a imprudência dos farristas diante do boi denunciavam o sono trocado por uma noite regada a cerveja. Onde e quando cada boi será solto é de conhecimento geral no município. Qualquer morador indica onde está acontecendo a farra do momento. Uma delas, na manhã de ontem, ocorria na Praia de Ganchos de Fora. Centenas de farristas esperavam pela soltura do boi, preso em um mangueirão. Quando o boi é solto, começa a farra propriamente dita. A confusão é geral. Os que chegam mais perto, provocando o boi a uma distância nada recomendável, são, geralmente, aqueles que consumiram mais cerveja durante a madrugada.
Centenas de mulheres e crianças participam da farra, considerada o evento social do ano. - Não temos mais nada. Nem teatro, nem cinema. Nossa única diversão é a farra - defendeu um deles. Quando o boi reage às provocações e corre em direção aos farristas, todos torcem pelo animal, querendo assistir ao confronto. Quanto mais bravo o boi, melhor é a farra. - Agora eles só trazem boi manso. Não tem mais graça. O bom era no meu tempo, quando soltavam os bois bravos, que todo mundo respeitava e saía correndo - lembrou uma farrista veterana.
Perto das 8h de ontem, cinco bois já estavam amarrados na Praia de Ganchos, o local mais "quente" da farra no município. O boi é laçado depois de um tempo de brincadeira, quando, exausto de tanta provocação, já não agüenta mais correr atrás dos farristas. - O boi é laçado quando tá cansado. Mais tarde, o bicho é trocado por outro boi "novo" que eles matam para comer - explicou um farrista que prefere não se identificar.
(...) Festa fechada
No início da manhã de ontem, na praça de Governador Celso Ramos, centenas de pessoas aguardavam a chegada do boi. Comerciantes, precavidos, lançavam mão de tábuas para evitar danos materiais aos estabelecimentos, comuns nesta época. Proprietário de um mercado na Armação da Piedade, João Henrique Monteiro protegeu o local com estrutura de madeira.
- A farra faz parte da tradição daqui. As pessoas deveriam vir conhecer - disse Monteiro, concluindo por advertir a equipe do Diário Catarinense para o perigo de estar ali.
Os farristas não permitem que a imprensa registre nada. Quando avistam uma câmera fotográfica ou filmadora, a palavra repórter corre de boca em boca.
Carnaval fora de época
A farra do boi tem características de evento oficial. Grupos de farristas se paramentam com camisetas coloridas que lembram os blocos de Carnaval. Uma delas, de cor amarela, trazia os seguintes dizeres: "Se o boi não vem pela terra, vem pelo mar. Se não vem pelo mar, vem pelo ar. Mas a farra do boi jamais acabará."
Outra, de cor vermelha, trazia estampada a cabeça de um boi, o nome da Praia de Ganchos e a frase: "Festa Nacional da Farra do Boi".